Uma conversa com a Dra. Mércia Litiho, a Dra. Brinquedos

Ukhomie:

Para iniciar a nossa conversa, gostaríamos que nos falasse um pouco sobre quem é a Dra. Mércia — conhecida como “Dra. Brinquedos” — enquanto pessoa, bem como sobre o seu percurso e experiência profissional.

Dra. Mércia:

O meu nome é Mércia Litiho Cumbana. Sou médica de clínica geral — e não pediatra, como algumas pessoas pensam — e trabalho na área da pediatria há cerca de sete anos. Após concluir a faculdade, ingressei imediatamente nas urgências de pediatria, onde fui adquirindo experiência prática, compreendendo o funcionamento dos serviços e identificando as principais dificuldades enfrentadas pela população nesta área.

Ukhomie:

A pediatria sempre foi um sonho?

Dra. Mércia:

Não. Muito pelo contrário. Quando estava na faculdade, achava a pediatria complicada. O estágio foi difícil e eu dizia claramente que não queria seguir pediatria. O meu sonho era ginecologia e obstetrícia. Mas depois de formada, fui colocada diretamente nas urgências de pediatria e foi aí que tudo começou a mudar.

Na altura, optava por trabalhar no Banco de Socorros e no serviço de adultos. No entanto, quando cheguei ao hospital para tratar da documentação no setor de Recursos Humanos, acompanhei uma colega até às urgências de pediatria. Ao chegarmos lá, a diretora perguntou-me por que não iria para a pediatria. Eu respondi que não gostava muito da área, pois a considerava complicada; o estágio tinha sido difícil e eu não me tinha identificado.

Apesar disso, tanto a diretora como a colega insistiram para que eu experimentasse, dizendo que, caso não gostasse, poderia posteriormente solicitar a troca. Foi assim que acabei por ir parar às urgências de pediatria. Embora eu já tivesse sido inicialmente colocada no serviço de adultos, nesse processo consegui fazer a permuta.

A partir daí, comecei gradualmente a gostar da área e a identificar-me com o trabalho, embora tudo tenha acontecido de forma bastante repentina.

Ukhomie:

Em que momento nasce a “Dra. Brinquedos”?

Dra. Mércia:

A personagem Dra. Brinquedos surgiu num momento muito especial da minha vida: quando me tornei mãe. Durante a gravidez e após o nascimento do meu bebé, continuei a interagir com o público nas redes sociais de forma leve, brincalhona e divertida, algo que sempre fez parte da minha personalidade, por ser uma pessoa bastante extrovertida.

No período do puerpério, comecei a produzir conteúdos no Instagram utilizando caixas de perguntas para interagir de mãe para mãe. Nesse processo, fui percebendo que muitas mães colocavam questões relacionadas a temas pouco divulgados na sociedade. Eram dúvidas simples, mas muito pertinentes.

Foi a partir daí que decidi criar a Dra. Brinquedos, com o objetivo de transmitir conteúdos de pediatria de forma simples e divertida, ajudando as mães a compreenderem melhor determinadas situações e, consequentemente, contribuindo também para a redução das longas filas nos hospitais. Muitas vezes, essas deslocações acontecem por questões pequenas e simples que, se fossem devidamente explicadas, poderiam ser resolvidas sem a necessidade de passar por essa situação.

Ukhomie:

Dentro da pediatria, acabou por criar uma identidade muito própria. Para si, o que é criar uma identidade médica e como é que um médico encontra essa identidade ao longo da sua carreira?

Dra. Mércia:

Para mim, isso tem muito a ver com quem é o médico, com a forma como cuida e se comunica com os seus pacientes. Traduz-se na realização de consultas de maneira mais humanizada e simples, facilitando o entendimento por parte dos pacientes ou dos pais. É justamente por meio da nossa identidade profissional que conseguimos construir uma maior relação de confiança com o nosso público-alvo, os nossos pacientes, criando uma conexão real e próxima tanto com eles quanto com os pais das crianças.

Ukhomie:

O nome “Dra. Brinquedos” tem um significado especial?

Dra. Mércia:

Sim. Tem tudo a ver com a criança. O brinquedo representa aproximação, conforto e confiança. No hospital, a criança já chega assustada. Quando usamos brinquedos, bonecos ou uma linguagem mais próxima, conseguimos quebrar esse medo. Isso ajuda não só a criança, mas também os pais.

Ukhomie:

Que impacto essa identidade teve no desenvolvimento da tua carreira?

Dra. Mércia:

A Dra. Brinquedos, de certa forma, alavancou a minha carreira. Sabemos que, hoje em dia, é muito mais fácil um médico sobressair quando é especialista e possui uma especialidade bem definida. Não é tão simples para o clínico geral ganhar espaço, pois muitas vezes existe a perceção de que o clínico geral é apenas aquele que “apaga fogos”, está ali para socorrer e transferir pacientes.

Com a Dra. Brinquedos, apesar de eu não ser pediatra, consegui ganhar visibilidade e nome no mercado. Aqueles vídeos, que eu nunca imaginaria que chegariam tão longe, são um exemplo disso. No TikTok, onde tudo começou como uma brincadeira, cheguei a ganhar cerca de 12 mil seguidores sem me dar conta. Com isso, comecei a conquistar a confiança dos pacientes e, de certa forma, também a confiança de algumas clínicas, que passaram a contar comigo como médica para atender nas suas unidades, tanto em consultas de clínica geral como em consultas de pediatria, mas principalmente nas consultas de pediatria.

Assim, acredito que a Dra. Brinquedos permitiu que eu me tornasse mais conhecida e que conseguisse colocar em prática todo o meu conhecimento em pediatria ao longo destes anos de trabalho na área.

Ukhomie:

Pode partilhar alguma história ou exemplo em que essa personagem tenha gerado laços de amizade ou até situações em que determinados pacientes fazem questão de ser atendidos apenas pela Dra. Brinquedos?

Dra. Mércia:

Tenho vários exemplos que mostram o impacto deste trabalho. Um deles aconteceu numa das clínicas onde trabalho. Estava de férias quando uma mãe entrou em contacto comigo a dizer que o bebé tinha umas borbulhas na pele e queria que eu observasse. Expliquei que estava ausente e sugeri que fosse atendida por outra médica da minha confiança, mas ela preferiu esperar pelo meu regresso.

Isso acontece com frequência. As próprias recepcionistas comentam que muitos pacientes fazem questão de ser atendidos por mim, muitas vezes porque me viram ou acompanham nas redes sociais.

Também já aconteceu de estar no hospital público, de máscara e touca, e ouvir mães perguntarem: “Dra. Mércia? Dra. Brinquedos?”. Dizem que me seguem, agradecem pelos vídeos e contam que os conteúdos as ajudaram a identificar problemas e a cuidar melhor dos seus filhos.

Tudo isso traz-me um grande sentimento de satisfação e confirma que o objetivo que tracei com este trabalho está a ser cumprido.

Ukhomie:

Fazer algo diferente geralmente vem acompanhado de alguma resistência. A verdade é que ainda temos poucos médicos com identidade própria, sendo que a maioria segue um percurso mais tradicional: termina o curso, trabalha no distrito e depois faz a especialidade. A doutora optou por um caminho diferente, construindo uma identidade e uma carreira próprias. Enfrentou alguma resistência, seja a nível pessoal ou por parte de colegas, por ter criado essa personagem e essa trajetória profissional?

Dra. Mércia:

Sim, já senti. Já houve especialistas que questionaram o facto de eu falar de temas pediátricos. Mas eu sempre deixei claro que não faço consultas nas redes sociais. O que eu faço é educação em saúde. Alertar, orientar e explicar. O clínico geral também tem esse papel. A internet é um espaço que pode e deve ser usado por todos, com responsabilidade.

Ukhomie:

O valor de ter uma identidade clara é indiscutível. Que questões éticas consideras essenciais na tua prática como médica e que limites saudáveis sentes necessidade de impor, mesmo estando presente nas redes sociais?

Dra. Mércia:

Existem muitas situações desse tipo e, honestamente, este é um dos meus maiores desafios. Quando as pessoas veem uma médica nas redes sociais a partilhar informação e a dar algum apoio em questões simples, acabam por achar que podem falar de tudo e expor qualquer problema de saúde.

Muitas vezes preciso chamar a atenção das seguidoras para não exporem situações pessoais. Já surgiram comentários com problemas que nem são de pediatria, incluindo questões de saúde íntima feminina, e nesses casos deixo claro que não posso responder.

Também aparecem perguntas como: “O meu filho está com tosse há três dias, o que posso dar?”. Esse tipo de questão não pode ser respondido num comentário. Explico sempre que isso não é ético e que não faço prescrições nem orientações clínicas públicas. O que faço é orientar onde atendo, para que a criança seja observada corretamente.

Procuro reforçar que os vídeos servem como alerta e educação em saúde, para ajudar os pais a reconhecer sinais e procurar uma consulta, e não como um espaço para expor problemas pessoais. As redes sociais são públicas e essas informações podem ser vistas ou usadas de forma inadequada.

Ukhomie:

O que a Dra. Brinquedos diria a um jovem médico recém-formado que sente algum receio em criar uma identidade própria e abraçar uma forma diferente de construir a sua carreira?

Dra. Mércia:

Eu digo sempre: não tenham medo de inovar. A medicina não é estática, e todos nós podemos fazer a diferença. As redes sociais são uma ferramenta poderosa para melhorar os cuidados de saúde.

No início, eu própria não sabia gerir bem as redes. Tive muita ajuda do meu marido, que trabalha com marketing digital, e isso fez toda a diferença. Por isso, acho importante que os médicos, sobretudo os recém-formados, aprendam um pouco sobre esta área.

As redes sociais permitem-nos levar informação onde antes ela não chegava. Há muitas áreas com falta de esclarecimento, e hoje grande parte da população está online.

Vejo nos médicos mais jovens uma grande oportunidade de usar estas plataformas para educar, orientar e até prevenir situações graves que poderiam ser tratadas mais cedo.

A minha mensagem é clara: usem as redes sociais, mas sempre com responsabilidade e ética. Quando bem utilizadas, elas podem transformar carreiras e, mais importante, salvar vidas.

Ukhomie:

Falando da Dra. Brinquedos, como a Dra. Mércia projeta esta identidade nos próximos cinco anos? Que projetos pessoais pretende desenvolver a partir desta persona e de que forma isso se relaciona com o seu futuro profissional enquanto médica?

Dra. Mércia:

Muitas pessoas esperam que, daqui a cinco anos, eu seja pediatra, mas esse nunca foi o meu grande objetivo. Acredito que é possível contribuir muito para a medicina mesmo sem um título de especialista, existem várias formas de atuar e fazer a diferença.

Espero que a Dra. Brinquedos continue a crescer, levando informação a cada vez mais pessoas através dos conteúdos que produzo. Como qualquer médica, também sonho em ter a minha própria clínica pediátrica.

Neste momento, estou a preparar o lançamento de um e-book e de um livro sobre introdução alimentar, um tema onde ainda existe muita desinformação.

Daqui a cinco anos, desejo que a Dra. Brinquedos seja mais do que uma presença nas redes sociais: uma marca consolidada, capaz de inspirar outros médicos a explorarem o mundo digital com propósito.

Ukhomie:

Que mensagem a Dra. gostaria de transmitir aos pequenos, aos pais e aos seus seguidores?

Dra. Mércia:

O que mais tenho a dizer aos pais e aos meus seguidores, primeiro, é obrigada. Se a Dra. Brinquedos existe e está onde está, é graças a eles: porque seguem, aderem e interagem com o nosso trabalho. Agradeço, inclusive, àqueles que interagem de forma negativa, pois também me ajudam a crescer.

Agradeço a confiança que depositam em mim ao entregarem os seus filhos aos meus cuidados. Quero dizer aos pais que continuem a acompanhar o nosso trabalho, o trabalho da UKHOMIE. Façam bom uso das redes sociais, procurando páginas que ensinem coisas positivas sobre os cuidados com os pequenos.

Deixo também um abraço e beijinhos a todos os meus pequeninos, os meus pacientes.

Ukhomie:

A UKHOMIE, tem uma frase que é “Não deixe que um estranho cuide de ti”. A Dra. já frisou um pouco sobre este ponto. Como a Dra. interpreta essa frase e que significado atribui a ela?

Dra. Mércia:

Ter um médico de confiança é fundamental para que o paciente forneça informações corretas e detalhadas, possibilitando que o acompanhamento seja feito de forma adequada e que se alcance um desfecho favorável. Por isso, é essencial que o paciente construa uma relação de confiança com o seu médico, e que o médico consiga conquistar essa confiança.

Acredito que é nesse sentido que dizemos: “Não deixe um estranho cuidar da sua saúde”. Durante o acompanhamento, o médico faz com que o paciente deixe de ser um estranho para ele, e ele deixe de ser um estranho para o paciente. Isso permite fidelizar o paciente e oferecer um cuidado mais eficaz. Um paciente que não confia no seu médico dificilmente seguirá as recomendações ou fará o tratamento corretamente, tornando-se um paciente perdido.

Há médicos que tratam doenças.

E há médicos que ficam.

A Dra. Mércia escolheu ficar — na escuta, na educação e no cuidado que começa antes da consulta.

Créditos

Entrevista: Equipe Ukhomie

Edição, adaptação e organização editorial: Herman Magaia

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